sábado, 9 de maio de 2009
"CLODOVIL FOI PRA O CÉU NO CORDEL"
"A Chegada Triunfal do Deputado Clodovil ao Céu" ( em versos de cordel ) Autor: Luís Emanuel Cavalcanti
1
Vamo lá musas matuta
Acordem vamo ajudá
Clodovil chegô no céu
Precisamo cordelar
O povo tem que saber
Que ele era espiciá
2
Se Patativa da Assaré
Ainda tivesse por cá
Ia fazê um ABC
Pra lhe homenagiá
Mas aqui a gente inventa
Vamo tentá lhi imitá
3
Entre tanto diputado
Um de classe foi chegá
Pra lembrá que a verdade
Sempre prevalecerá
Nem que seja a mais dura
O cabra tem que aguentá
4
Munta gente tinha raiva
Uns até ia chorá
Clodovil era assim mermo
Num pudia cutucá
Pois sortava as cachorra
Num pudia se enfezá
5
Oradô pra vê duê
Falava pra sustentá
Não tinha essa de jeitim
Depois ir se descurpá
Clodovir era na bucha
Pois butava pra quebrá
6
Um dia lhe perguntaro
Sobre o significado
Do nome de Clodovir
Ele disse é cumpricado
Pois inté nesse meu nome
Fala dos meu predicado
7
É um nome de três sílaba
Primeira: "Clô" pros chegado
A do mei do verbo dá
Eu "Dô" sempre de bom grado
E finarmente vem o "Vir"
Pois sô "Vir" contrariado
8
Doela em quem doela
Custumava ele falá
Mas por que será o home
Foi tão cedo nos deixá?
A câmara ficô chata
A rotina vai vortá
9
Vai ficá sem colorido
Preto e branco pra daná
Os mermo home sisudo
Cum paletó tudo iguá
Sem as tirada inteligente
Que só ele sabia dá
10
Deixa pra lá a câmara
Que saiu no prejuízo
Pois o nosso diputado
Já tá é no paraíso
E nós conta tudo agora
Nesse momento preciso
11
Sum Pedro tava no céu
Seu móio de chave na mão
Por cima uns querumbim
Desenhando um coração
Do jeito que Maria Braga
Faz na televisão
12
As trombeta ia tocano
Fazeno anunciação
Di rumpante o diputado
Chega numa produção
Todo chei de purpurina
Brilhano qui nem pavão
13
A rôpa dele iguarzinha
Todo lorde bem marcante
Com aquele jeito artivo
Cas parença insfuziate
Sum Pedro se admirô
Lhe achô foi elegante
14
Começô as homenage
Hôve munta lovação
Pra contá tanta façanha
Do tão nobre cidadão
Pois no céu si faz assim
Com quem merece atenção
15
Por fim o santo chavêro
Lhe mandô pra um gabinete
Dizeno: ói! Clodovir
Mandei butá munto infeite
Tá mió qui o de Brasílha
Espero que tu aproveite
16
Pedo diz a dois anjim
Acumpanhe o diputado
Esse corredô do céu
Os camim é cumpricado
E pode sê que Clodovir
Si disvie pra outro lado
17
Aí fôro os três seguino
Por aquela imensidão
Clodovir mais os anjim
Andaram um pedação
No que avista o gabinete
Clodovir sorta um gritão
18
Pois na porta bem armado
Tava são Sebastião
Clodovir reconheceu
Pois logo beja-lhe as mão
Dizendo oh,meu santinho
Cuma é grande a imoção
19
Mas que má lhe pregunte
O que faz nesse rincão
Um santo cumo vosmecê
Num mereço essa atenção
São Sebastião só diz
Tô aqui pra uma missão
20
E Sigura Clodovil
Pidino pra se assentá
Pois a sercunstança ia
Intá mermo imocioná
Clodovir cum medo diz
Vosmincê vá divagá
21
O santo logo lhe diz
É sobre sua incarnação
O sinhô será mandado
Pra uma vila do sertão
Vai renacer como um home
Iguarmenti um Lampião
22
Cum jeito de cabra macho
Defendeno os oprimido
Pois o rico exploradô
Nunca terá veiz cunsigo
Clodovir dá é um grito
Dizeno que era um castigo
23
Pois num gosto de Caatinga
Eu só vô é me espinhá
São Sebastião lhe diz
Você vai se acustumá
Vai tê também uns filinho
E uma mulhé pra lhe amá
24
Num vai mas sê cuma antes
Qui viveu só sem mulhé
Uma vida assim sozim
Meu Deus quem qué ?
Se aprumá logo meu fio
Se alevante tenha fé
25
Clodovir chorano diz
Já deu pra me arripuná
O sinhô tá é sonhado
Pode o destino mudá
Só fartava agora essa!
O sinhô vim me casá
26
Oh! Não que pesadelo
Quando eu vô me acordá.
Nisso chega Lampião
Dizeno: esse cabra vai já
Tu tás com muito chamego
Tu é home ou uma preá
27
Bora vomo discançá
Que amenhã tu já desce
Clodovir vira pra ele
Ora vê se tu me esquece!
Lampião lhe falô grosso:
"Cabra tu não me connhece"
28
Clô chorano muito diz:
São Sebastião vem cá !
Pelo amor de Deus
O sinhô vem me sarvá
Mas o santo diz: meu fio
Mais nada posso mudá
29
Lampião apaga a luz
Mandô o povo si calá
E a histora acaba aqui
Num tem mais para contá
Com coroné Lampião
Quem é que vai cuntestá
Clodovil ia achar esse cordel podre...
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A tragédia da Cova da Moça - um Otelo Nordestino

pelo ciúme
cuja a mão, como a de
um índio vil, atirou
longe uma pérola
mais preciosa do que
toda a sua tribo...”
Otelo. quinto ato, cena II
William Shakespeare,
1
A tragédia de uma moça
Estes versos vão contar
Quando foi que aconteceu
Poucos sabem precisar
Esta cidade estremece
Somente de ouvir falar
2
Pra narrar esta história
Cada um tem sua maneira
Já que o povo inventou tanto
Este Cordel segue à esteira
Pra ver se dá pra contar
A história da moça inteira
3
Pode ser até um jeito
Para história registrar
Pois se um dia em Porto Seguro
Shakespeare viesse aportar
A tragédia desta moça
Para Inglaterra ia levar
4
Nós sempre nos esquecemos
Das desordens dessa vida
Só que o caso desta moça
Não cicatrizou a ferida
No inconsciente coletivo
A lembrança está bem vívida
5
Desta mártir inocente
Sempre o povo vai lembrar
Um século e meio se passou
Mas você pode perguntar
Aonde ela foi enterrada
Qualquer um sabe o lugar
6
Enterraram ela no mato
Bem longe do campo santo
Este crime passional
Até hoje causa espanto
Foi acusada de adultério
Jogaram em qualquer canto
7
Vamos tentar entender
Como ela foi se enredar
E o porquê desta infeliz
Com um monstro se casar
Isto não foi obra de Deus
Mas o cão que foi atentar
8
Ela casou com um juiz
Que iam transferir para cá
A nomeação tinha saído
Mas não deu pra ele viajar
Só ela veio da capital
Sem lua-de-mel consumar
9
Ela encarou uma barca
Que fazia linha pra cá
A coitada quase morre
De tanto o mar balançar
E só ficou sossegada
Quando terra foi avistar
10
Estava apreciando a vista
Só que a barca sacudia
Era a entrada da barra
A Igreja da Pena via
Seu marido tinha dito
Que do mar ela veria
11
Quando já estava em terra
Veio um cabra lhe ajudar
Era gente do doutor
Começou a lhe olhar
A moça rezou o credo
Começou a se arrepiar
12
Ele foi pegando as malas
Fazendo muito elogio
Seu jeito era de ruim
A moça logo sentiu
Teve mais uma impressão
Que lhe deu mais arrepio
13
Naquele tempo antigo
Não misturavam sentido
Ninguém sabia direito
O que era um ser atrevido
A moça foi lhe tratando
E lhe dando logo ouvido
14
O bicho era debochado
Ela pediu pra ele parar
Pois estava envergonhada
Ele começou a chatear
Imagine que este homem
Disse você é de arrasar
15
Ela lhe chama de atrevido
Que a respeite por favor
Pois ela estava casada
Seu marido era doutor
E já estava cansada
De seu olhar constrangedor
16
Deus ajudou chegou em casa
Encontrou limpa e perfumada
Uma mucama ajeitou
Pra dama tão esperada
A moça vai pra janela
Ficou muito deslumbrada
17
A casa dava para um rio
Era muito confortável
Com as árvores do mangue
O lugar era agradável
As folhas eram tão verdes
De um frescor inigualável
18
Naquele tempo uma viagem
Durava toda uma vida
As coisas eram tão longe
Que hoje ninguém acredita
Pois se demora um minuto
O povo logo se irrita
19
Cansada dessa jornada
A moça vai se banhar
Nas mornas águas do rio
Ela tenta relaxar
A coitada nem percebe
Que estavam a lhe espiar
20
Tinha um cara no mangue
Sem que ninguém o notasse
Não tirava o olho dela
Parecia um paparazzi
Admirava o lindo corpo
Como se fotografasse
21
A moça não pressentiu
Mas foi pra casa almoçar
A mucama traz uma toalha
Pra ela poder se enxugar
E ela não parava de dizer
O quanto era lindo o lugar
22
Era época de Dom Pedro
Não existia nem motor
Era tudo pelo vento
E tinha que estar favor
A moça começou a bordar
Pra esperar seu doutor
23
Só tomou uma precaução
Prevenindo sua empregada
Que enquanto o juiz não chegasse
Para evitar fofocada
Não deixasse nenhum homem
Adentrar na sua morada
24
A moça não exagerou
Por ter tanta precaução
Ela viu pela treliça
Aquele mesmo cidadão
Que lhe ajudou com as malas
Fazendo tanta insinuação
25
E teve um dia que o pervertido
Queria limpar seu coqueiro
Ela respondeu da janela
Decidida e bem ligeiro
Aqui dentro desta casa
Homem não vai no terreiro
26
Meu marido está viajando
E eu não gosto de piseiro
Quando ele vier para casa
Você pode sair limpando
Se ele der consentimento
Tudo quanto é coqueiro
27
Ele abanou o chapéu
Deu um sorriso malicioso
Ele pensava que era bom
Se achava muito gostoso
Mas a impressão que dava
Era de pavor e de nojo
28
A moça botou a mantilha
E foi fazer uma oração
A mucama lhe traz água
Para aliviar a pressão
A moça ficou ajoelhada
Até passar sua aflição
29
Quando fechou o oratório
Seu rosto santificado
Lembrava o de Santa Rita
De tanto ela ter rezado
A mucama se aproxima
Pra lhe dar um resultado
30
A mucama pesquisou
Sobre aquele malfeitor
Vejam o que ela descobriu
Ele era irmão do doutor
Por parte de pai ela disse
Que uma amiga lhe falou
31
Valha-me Deus disse a moça
Este homem é meu cunhado
Vai ver que o doutor nem sabe
Que o irmão dele é tarado
Porque se soubesse disso
Deserdava este atentado
32
Os dias passaram tranqüilos
Ele não lhe importunou
A moça fez tanto crochê
Que o tempo logo passou
Um dia bateram na porta
Era o doutor que chegou
33
Foi virando a maçaneta
Não esperou ninguém abrir
Trazia uma cara tão feia
Parecia mais um zumbi
A moça sorriu pra ele
Pra tentar lhe distrair
34
A visão assustou a moça
Seu amor se transformou
Ela lhe manda tomar banho
Pra melhorar o calor
Mas ele diz que está limpo
A moça abraça o doutor
35
Que a recusa e lhe diz
Eu não quero me sujar
Pois numa mulher adúltera
Eu não quero nem tocar
A moça se ajoelhou
Começou logo a rezar
36
A coitada imaginou
Que era efeito da viagem
Vinte dias numa barca
O povo via até miragem
Ela lhe pede pra sentar
Pra recompor a coragem
37
Chorando dizia ao doutor
Que fosse guardar a bagagem
Pois também passou por isto
Era tudo uma bobagem
E ele ficaria logo bom
Se tomasse beberagem
38
A moça grita por chá
Pra tranqüilizar seu amado
Mas ele dizia que algo ali
Tinha que ser comprovado
Foi arrancando roupa dela
Parecia mais um tarado
39
Chamava-lhe de traidora
Que ele tinha uma missiva
Comprovando que a coitada
Virou mulher permissiva
E só tinha cara de anjo
Mas era cruel e nociva
40
Ela diz que é delírio
Porque sempre foi católica
Temente dos mandamentos
E a história era estrambólica
E na barca que ele veio
Tinha era bebida alcoólica
41
O doutor era moreno
Homem alto e presunçoso
Parecia um estrangeiro
De um lugar bem perigoso
Perdido sem Jesus Cristo
Estéril e pedregoso
42
A moça ficou sem roupa
Começa a investigação
Num sinal particular
O doutor presta atenção
Pois ele não conhecia
Casou com procuração
43
Tira a tal carta do bolso
Prossegue com o terror
Compara com um desenho
Que um estranho lhe mandou
Em carta sem remetente
O doutor acreditou
44
O sinal era na coxa
Num lugar bem escondido
A pessoa pra ver aquilo
Só mesmo sendo o marido
O ciúme tomou-lhe conta
O cabra estava possuído
45
Quebrou todos os vidros
As louças do casamento
Os bordados primorosos
Voaram para o calçamento
Pelos cabelos lhe arrastou
Da sala até o aposento
46
Aos gritos falava da carta
Da dúvida sobre o autor
A criada escuta os insultos
Trouxe o chá para o doutor
Mas ele diz que se afaste
E lhe agride com furor
47
Naquela época um criado
Não se metia com patrão
Era tempo dos escravos
Quem é que saia do rincão
Mas essa boa mucama
Não deixou barato não
48
Foi pra o fundo do quintal
Pra colher uns vegetais
Fez logo uma fogueira
Cantou hinos ancestrais
Clamou pela proteção
De todos seus Orixás
49
A mucama era vidente
E também lia pensamento
Enquanto subia a fumaça
Fazia um encantamento
Pra saber quem acabou
Com aquele casamento
50
Teve a visão de sua patroa
Vestida só com anágua
Tomando banho no rio
Se revigorava na água
E o irmão do juiz desenhando
Com a boca cheia d’ água
51
Ela desperta do transe
Corre pra salvar sua dama
Mas encontra ela estendida
Já morta em cima da cama
E o assassino a seu lado
Tinha enforcado sua ama
52
Vestida de muita coragem
Depois daquele ritual
A mucama enfrenta o juiz
Chamou-lhe de irracional
Matou a mais pura criatura
O ser mais angelical
53
Gritava que ela era séria
E toda aquela armação
Tinha sido planejada
Pelo seu covarde irmão
O monstro mais invejoso
A imagem da perdição
54
Eis que o irmão do juiz
Estava chegando e escutou
A mucama descobriu
E falava pro doutor
Ele voou pra cima dela
Com um punhal lhe furou
55
Mas o juiz tenta salvá-la
Das mãos daquele bastardo
E com um tiro certeiro
Derrubou o desgraçado
Ele não soltou a mucama
Morreram os dois agarrado
56
Os vizinhos se assustaram
Foram chamar o ouvidor
Era o chefe no momento
Veio ver aquele horror
O juiz deitado com a moça
Dizendo matei meu amor
57
Estava com ar de doido
Ele queria se matar
Ficou pouco tempo na vila
O Estado mandou exilar
E até hoje ninguém sabe
Aonde é que ele foi parar
58
As três mortes no quarto
Poder-se-ia comparar
Com a tragédia de Otelo
Quem já leu vai se lembrar
O caso ficou tão enredado
Só Shakespeare da pra explicar
segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A HISTÓRIA DE CARMINHA E SAMUEL
1
Só se luta nessa vida
Depois os filhos crescem
O que nos espera é a morte
As vistas escurecem
Ficam dois velhos em casa
Pouco a pouco emudecem
2
E ninguém fala mais nada
Se jogam lá num sofá
Vai tudo se acomodando
Esperando a morte chegar
Nem sabem se está perto
Já começam a esperar
3
Numa situação assim
Carminha contou que vivia
Trancada com seu marido
Que só Deus acudia
Pois até pra ir ao banco
Era alguém pra ela ia
4
Nem comida mais fazia
O fogão era brilhando
Os dois assim arreados
Iam se mumificando
Às vezes um marmitex
E que estava lhes salvando
5
A velha disse que um dia
Num surto de impaciência
Olhou pro velho e pensou
Pra que na vida decência
Temos dinheiro pra nada
Estou perdendo a paciência
6
Se esse troço velho
Se for do mundo primeiro
Juro que eu corro no banco
E rapo todo o dinheiro
Vou viver o que me resta
Conhecer o mundo inteiro
7
Só vou deixar reservado
O dinheiro do caixão
Deus me livre de mais velho
Só vou querer garotão
Pra torrar todo dinheiro
E viver com emoção
8
Parece que foi macumba
O velho logo sucumbiu
Nem sentava mais no sofá
Por causa do estado febril
Não passou uma semana
Queimou o resto do pavio
9
Quarenta e cinco anos
Durou esse casamento
Mas temos que admitir
Aquilo já era tormento
E esse povo vivia junto
Por causa dum juramento
10
Enterraram logo velho
Ela voltou pra sua morada
Por dentro estava contente
Iria dormir sossegada
Os filhos iam lhe acompanhar
Mais ela disse que nada
11
Vocês fiquem sossegados
Se é por causa de fantasma
Ele já ficou enterrado
Acabou-se crise de asma
Me acordando de madrugada
Pra ir atrás de cataplasma
12
Os filhos se entre olharam
Não entenderam nada não
Disseram ela melhora
Passou por muita pressão
Mais eles se enganaram
A velha não mudou não
13
No outro dia amanheceu
Bem disposta e descansada
Separou todo dinheiro
E saiu no mundo largada
Nem deixou o do caixão
Ela saiu foi disparada
14
E logo no primeiro dia
Deu um desejo realizou
Foi no cinema ver Zorro
A velhinha se empolgou
Passou numa loja chique
E roupa nova ela comprou
15
Botou batom vermelho
Parecia bem mais nova
Hospedou-se num hotel
Toda linda e cheirosa
De noite pediu champanhe
Estava mesmo gloriosa
16
A gastança começou
Era rica de montão
Gorjeta sempre incluída
A coroa fazia questão
O tratamento de rainha
Lhe dava satisfação
17
Vamos deixá-la relaxando
Na sua cama acolchoada
Planejando suas aventuras
E ver como estão os filhos
Pois eles não tinham pista
Onde enfiou-se esta danada
18
Estava todo muito doido
Até na polícia tinham ido
Já fazia alguns dias
Que a velha tinha partido
E a preocupação maior era
Que a grana tinha sumido
19
Carminha tinha retrato
Em tudo quanto é jornal
E seu rostinho estampado
Causou comoção geral
Agora ela era importante
Por causa do capital
20
Achem nossa mãe querida
Daremos gratificação
Tem que tomar remédio
Sofre muito da pressão
Seus filhos estão tristes
Passando por aflição
21
No anuncio a foto de dela
Com uma carinha de vovó
Colada no ponto de ônibus
O povo lia e tinha dó
Mais ninguém dava noticia
A velhinha virou pó
22
Mas era pó de maquiagem
Estava muito mudada
Não vestia mais vestidão
Agora era legge colada
Um dia ela viu sua foto
E deu muita gargalhada
23
Quem lhe reconheceria
Ainda mais com Samuel
Um garçom simpático
Que ela conheceu no hotel
Só viviam de mãos dadas
A coroa estava no céu
24
Um dia no ponto de ônibus
Samuel olhou pra tal foto
E disse para Carminha
Que velha tão amarela
Carminha disse é mesmo
Eu estou até com pena dela
25
O garçom nem desconfiou
Nada daquela gracinha
Estava mesmo mudada
A danada da Carminha
O que o dinheiro não faz
Ela virou uma cocotinha
26
Mais ela podia ser pega
Facilitar não convinha
Ela disse pra Samuel
Que tal Porto de Galinha
Ele disse boa idéia
E rodopiou a velhinha
27
Da Bahia a Porto de Galinha
É chão que nem o cão
Foram de São Geraldo
Ela não entrava em avião
Dois dias sentados num banco
Deu pra falar um montão
28
Falou das doenças do velho
E o pijama azul desbotado
Da barba de presidiário
E o olhão arregalado
Dos gritos que ele dava
Acordando apavorado
29
Falou também dos filhos
Casal de praga que tinha
Eles nunca visitavam
A pobre vivia sozinha
Falando com as paredes
O velho só tosse tinha
30
Aí o rapaz lhe abraçou
Deu lhe um beijo apaixonado
Prometeu ficar com ela
Nunca sair do seu lado
Pois até lhe conhecer
Também vivia aperreado
31
Ficou sem mãe muito cedo
E nos vinte um ano de idade
O seu pobre coração
Era morada da saudade
Sofria muito nesse mundo
Passando dificuldade
32
Carminha quase chorando
Disse muito emocionada
Que não lhe daria filho
Por estar muito passada
E Samuel só lhe disse
Cuide de mim e mais nada
33
Chegaram em Pernambuco
Compraram um bangalô
Era bem perto do mar
Um belo ninho de amor
Carminha se bronzeava
E no cabelo botava flor
34
Samuel lhe sussurrava
Belas frases de amor
Ninguém falava em idade
Pois era grande o furor
Carminha se estremecia
Com um fogo abrasador
35
Mas depois de algum tempo
E ajuda de uns detetives
Acharam o lar deles dois
Aqueles filhos horríveis
Vinham atrás do dinheiro
Eles eram mesmo incríveis
36
Samuel foi recebê-los
Com uma aliança no dedo
E disse pros filhos dela
Casei com ela em segredo
Carminha agora está salva
E nunca mais terá medo
37
Vocês não lhe valorizavam
Por mim será bem tratada
Já aplicamos o dinheiro
Ela está bem remoçada
Agora querem sua mãe
Ninguém vai levar nada
38
O filho de Carminha
Investiu contra Samuel
Foi lhe dando logo uns socos
O desfecho foi cruel
Carminha entrou no meio
Branca que nem papel
39
Tremia que nem vara verde
Gritou por Nossa Senhora
Vão matar Samuel
Salvá-me dessa hora
Ele me trouxe a felicidade
O quê que eu faça agora
40
Ela pegou o telefone
E chamou 190
A polícia encostou
O caso pareceu serio
Pois chegaram dando tiro
Sem ter nenhum critério
41
A Polícia pernambucana
A Carminha assustou
Foram tão exagerados
Que a coitada enfartou
Um soldado gritou pro outro
Pedindo um desfibrilador
42
E o povo foi se afastando
Pra Carminha respirar
Daí contaram até três
E foram lhe desfibrilar
Carminha levou um sopapo
Começou logo a falar
43
Queria saber de Samuel
Tudo estava a desabar
Achava que ele morreu
Mas a filha veio acalmar
Disse mãe ele levou um tiro
Só vai ter que internar
44
A velha perguntou
E o teu irmão como tá
A filha disse pra velha
Ele não pôde escapar
Está crivado de balas
Foi à polícia enfrentar
45
Carminha teve outra crise
Ela começou a delirar
Dizia que coisas terríveis
A gente podia conversar
Por que nos descobriam
Só veio confusão pra cá
46
O filho morto no chão
Samuel na espinha baleado
Ela estava quase morta
Lhe amparava um soldado
E a causa de tudo isso
Um povo descontrolado
47
Continuava delirando
Primeiro a gente raciocina
Não vai inchado como um sapo
E pulando logo pra cima
Se se pensasse assim
Nunca ia ter chacina
48
Um médico apareceu
Carminha parou de delirar
Pois ele deu-lhe calmante
Pra ela parar de falar
Botou Samuel numa maca
E foi todo se internar
49
A filha queria ir junto
Mas Carminha e Samuel
A velha disse Deus me livre
Saia daqui “go to hell”
Estou livre de vocês
E levantou as mãos pro céu
50
A ambulância deu partida
Com destino ao hospital
Uma enfermeira acompanhou
Pra tranqüilizar o casal
Acabou tudo bem
Este amor é imortal
Garvidez na Adolescência

1
Este cordel vai contar
A história de Geoconda
Garota meiga e querida
Que foi levada pela onda
É uma coisa complicada
Que a barriga arredonda
2
Geoconda era normal
Ia pra escola com alegria
Brincava com seus amigos
Era tanta harmonia
Oh Menina estudiosa
Muita coisa ela sabia
3
Um dia a professora disse
Geoconda você vai bem
Em quase toda matéria
Está com a média cem
Faça tudo direitinho
Que você vai muito além
4
Estamos na 8ª série
Depois é segundo grau
Você só tem 13 anos
Está tudo bem normal
Nossa senhora te ajude
E o pai celestial
5
A estudante emocionada
A professora abraçou
Seus colegas aplaudiram
A classe se emocionou
Era só mais alguns meses
E o ano se acabou
6
Geoconda foi se sentar
Pra aula dar seguimento
Quando arrastou a cadeira
Para ela ir tomando assento
Se escutou um forte barulho
Que causou constrangimento
7
Era a farda de Geoconda
Que rasgava o cosimento
Escondendo a gravidez
Ai meu deus que tormento
A professora pediu calma
Muita calma no momento
8
Disse pro resto da turma
Vira outra professora
Pois vou levar Geoconda
Pra falar com a diretora
Se a gente demorar muito
O resto da roupa estoura
9
Pegou na mão da menina
Pelo corredor dizia
Apertaste tanto a roupa
Com mais tempo tu morria
A professora perguntou
Se a mãe dela sabia
10
Mas em estado de choque
Geoconda nada dizia
E foram as duas chorando
Até a diretoria
A diretora foi dizendo
Ai meu Deus que agonia
11
Esses meninos de hoje
É tudo sem paciência
Com treze anos de idade
Acabam com a adolescência
Eu acho que hoje em dia
É chato ter inocência
12
O sermão foi muito longo
Demorou pra terminar
Se a gente for contar tudo
O cordel vai se alongar
Vamos logo pros finalmente
Pois o tempo vai passar
13
E então disse a diretora
Se os pais dela não sabem
Encarrego á professora
De levar esta mensagem
Sua missão ela é difícil
Mas Jesus lhe dá coragem
14
Vai ser bem desagradável
Pra Luzia e seu Zezinho
São os pais desta garota
Moradores do Campinho
Já olhei na ficha dela
O endereço está certinho
15
Geoconda cabisbaixa
Saiu da secretaria
Estava envergonhada
Não sabia o que fazia
Sua mãe ia ter era um troço
Coitadinha só tremia
16
Disse tu tas gorda filha
O que foi que tu fizeste
Chega assim toda rasgada
Faz regime que emagrece
A filha disse pra mãe
Se eu falar tu enlouquece
17
Então tu tas é buchuda
Daquele fio duma peste
Por isso eu tava notando
Que sempre que escurece
Tu larga a lição de casa
E o morro abaixo desce
18
Pras bandas da Beija -flor
Pra se encontrar com Alex
Cabra safado quando anda
A cueca dele aparece
Onde tas com a cabeça
Aquilo nem homem parece
19
Ele só tem quinze anos
E vai sobrá é para eu
Tu num frita nem um ovo
Geoconda tu enlouqueceu
Quando Zezinho chegar
Ele vai te dar o teu
20
Ai meu Deus me acuda
Pobrezinho do teu pai
Trabalhando na pescaria
Pra ganhar vinte reai
Agora tamo perdido
O que é que nos faz
21
A professora notou
Que a escola ali era pouca
A mãe falava tanto
Que a voz já tava rouca
E acabou confessando
Que vivia lavando roupa
22
E nunca sobrava tempo
Para ela ver o andamento
Da educação dos meninos
Disse com acanhamento
Tenho parcela de culpa
No triste acontecimento
23
A professora virou as costas
E foi pra casa depressiva
Pesando em achar um jeito
Encontrar uma saída
Pois tinha muita menina
Que ia tomando iniciativa
24
Para trás ficou a família
E o abacaxi para descascar
A professora sabia
Ela não ia mais estudar
Pelo menos é o que diz
A estatística escolar
25
Quando dá noticia
Da grande evasão que se dá
Pois adolescente que engravida
Dificilmente volta a estudar
Tem que cuidar do menino
Até ele poder andar
26
Muitas garotas passam
Por momentos de amargar
Trabalham em subempregos
Pro rebento sustentar
Já que na maioria dos casos
O pai nem quer se importar
27
Os médicos também falam
Que a gravidez precoce
Mata muita adolescente
A bacia não tem suporte
E a sociedade nem liga
Pra elas o nariz torce
28
Sem preparo psicológico
Em nosso mundo industrial
Ficam fora do padrão
Da sociedade atual
E vão engrossar as filas
Da assistência social
29
Nas famílias de baixa renda
Vira saco de pancada
Em muitos casos as coitadas
Pra rua ela é mandada
Porta aberta para as drogas
Prostituição e mais nada
30
Aborto clandestino
Em pesquisa documentada
Encabeça a lista de óbitos
A professora arrepiada
Rezou logo um pai nosso
Pra sentir-se aliviada
31
Prometeu fazer uns versos
Pra conscientizar a moçada
Sobre tudo que acontece
Com mocinha desavisada
Que vai logo pros finalmente
E se entrega pro camarada
32
Abram seus olhos garotas
E não caíam na besteira
Pois vacilar com coisa séria
Compromete a vida inteira
Esse negocio de engravidar
Não é só uma brincadeira
33
E as garotas serão
Prejudicado demais
Nossa sociedade é assim
Rapaz é sempre rapaz
Parece até que ter filhos
Mostra que ele é capaz