segunda-feira, 22 de junho de 2009
A TRISTE HISTÓRIA DE UMA VITIMA DA PALMATÓRIA
Autor: Luis Emanuel Cavalcanti
Aqui começo a contar
Uma pequena historinha
Que me contou uma senhora
Chamada dona Lurdinha
E apesar de ser vovó
Ainda cuida da cozinha
Um dia lhe perguntei
Porque ela não estudou
O que a mulher respondeu
Foi terrível e me assustou
Apanhou da professora
Pra escola não voltou
Disse-me que nunca foi
Uma menina levada
Mas às vezes se entretia
E na escola atrasada
A professora batia
E lhe deixava ajoelhada
Era o tempo do governo
Do Dr. Getúlio Vargas
A época da ditadura
De palmatórias amargas
Não tinha uma só criança
Que escapasse dessas larvas
Até sangue dos alunos
Nessa era se tirava
Todo mundo consentia
Quase ninguém se importava
Nos idos anos 40
A lei do cão governava
A velhinha foi falando
Com saudades dos caminhos
Quando para escola ia
Com o seu bom amiguinho
Pedrinho, este o nome dele
Que era também seu vizinho
Quando chegava atrasada
Na sala podia entrar
Mas aquilo era somente
Para o sermão escutar
Às vezes a professora
Botava era pra quebrar
Um dia a ditadora
Na aula de geografia
Perguntou para a Lurdinha
Pra ver se ela sabia
O nome dos continentes
Lurdinha nada dizia
Se arretou a professora
Botou Lurdinha ajoelhada
Torturou a pobrezinha
Parecia endiabrada
Depois virou-se pra turma
Pedindo a tabuada
Martirizada a menina
Rezava à virgem Maria
Pedia pra que ajudasse
Pois o seu joelho doía
E estava envergonhada
Porque toda classe via
Era cinco vezes quatro
A classe se apavorava
Mas Deus logo os acudia
E todo mundo acertava
Porque Lurdinha ajoelhada
A eles exemplo dava
Por fim o som da cigarra
E logo a classe sumiu
A mestra disse levanta
Lourdinha no chão caiu
E a professora malvada
Nem sequer lhe acudiu
E só lhe disse uma coisa
A lição de casa traga
Com o nome dos continentes
Não me dê resposta vaga
Não precisava nem dizer
Que a palmatória era praga
Assim por aquele dia
Do inferno ela se salvava
Foi andando cabisbaixa
E Pedrinho lhe aguardava
Lhe deu logo os parabéns
Porque ela não se entregava
E foram pelo caminho
Ele apoiando a Lurdinha
Levou ela até em casa
Ela ficou alegrinha
Pedrinho nunca deixava
Ela se sentir sozinha
Quando foi entrando em casa
A mãe foi logo dizendo
Eu já conheço essa cara
O que que andas fazendo?
Corre logo pra cozinha
Que o feijão está cozendo
Vá buscar água pra casa
Quando aprontar o almoço
Vamos ver se não esquecesses
De voltar logo do poço
E fazer bem a lição
Para ficar um colosso
Quando foi anoitecendo
Ela da lição lembrou
Procurou nos livros velhos
Mas em nenhum encontrou
Os continentes, com medo
Acho até que ela chorou
Quem iria lhe ajudar
Ninguém ali estudava
O sujeito nem sabia
Onde a Paraíba estava
Imagina o que aquela
Estudante procurava
O anoitecer do sertão
Escurece dando medo
Todo povo sertanejo
Vai pra cama muito cedo
Não da pro cabra estudar
Pois não enxerga o enredo
E quem sabe o que Lurdinha
Em sua cama pensava
Talvez ela até achou
Que a mestra perdoava
E pensando assim dormiu
Porque logo o sol raiava
Sete horas da manhã
Pedrinho lhe esperava
Lurdinha olhava pra ele
E a cabeça baixava
Era uma menina santa
Acho que os anjos amparava
Eles chegaram à aula
Pontualmente na hora
A professora aguardava
Ela dormia na escola
Eles olhavam pra ela
E já queriam ir embora
Ela tinha roupa escura
O cabelo preso inteiro
Era bem alta e gorda
Tinha uma voz de braseiro
Como alguém que foi criada
No mato com cangaceiro
Logo todos se sentaram
E fizeram uma oração
Ela virou pra Lurdinha
Vamos fazer argüição
Lurdinha nada sabia
Não estudou a lição
E já foi se preparando
A mão já vinha estirada
A professora contava
Os bolos desesperada
E os meninos observavam
Lurdinha sem falar nada
O agressor sempre deseja
Ver o agredido apelar
Mas a franzina menina
Não pedia pr parar
A bruaca com mais raiva
Terminava indo chorar
E acertou a menina
Na sua frágil cabecinha
Lurdinha soltou-se dela
E foi pra casa sozinha
Olhem bem que essa menina
Nem dez anos ela tinha
Daquele momento em diante
Encolheu-se numa cama
E foi numa sexta-feira
Por todo fim de semana
A mãe achou que era gripe
Mas Lourdinha não reclama
Só na Segunda bem cedo
Pedrinho deu pela falta
E foi saber da mãe dela
Essa velha quase infarta
Porque a menina estava
Com uma febre bem alta
Lá no seu cantinho só
Com a febre que ela tinha
O que agora lembrava
Uma baleada rolinha
Pedrinho a mãe dela disse
Quase que matam Lurdinha
A mãe pegou a menina
E botou logo no braço
Só assim que reparou
Na cabeça dela um traço
E para o médico a levou
Perguntando o que é que eu faço?
O doutor disse meu Deus
Isso não tem condição
Quem bateu nessa menina
Parece sem coração
Quando é que vai acabar
Com tão grande aberração
A mãe disse seu Doutor
Professor é igual um pai
Se ela não quer mais escola
A hora que quiser sai
Mais uma coisa ela sabe
É pra roça que ela vai
Desse jeito aconteceu
Pra escola não voltou
A mãe lhe botou na roça
Com treze anos casou
Porque desse jeito ela
O ritmo não segurou
É certo que passou tempo
Desde esta atrocidade
Alguns professores tinham
Esse instinto de maldade
Comprometendo o futuro
Trazendo infelicidade
Porque ela ainda sente
A cabeça lhe doer
E quando força sua mente
Para uma frase ler
Parece que de repente
Vê o mundo escurecer
Eu acabei de contar
A lamentável história
Que não só ficou marcada
Lá num canto da memória
Lurdinha não teve chance
Por causa da palmatória
quarta-feira, 17 de junho de 2009
CLODOVIL chegada no ceu de
1
Agora que o cancioneiro
Vai ter muito pra contar
Pois no tal de Clodovil
Poetas vão se inspirar
Vai ser cada coisa boa
Dá até pra imaginar
2
Ate mermo Patativa
Se ainda tivesse por cá
Preparava um ABC
Pra lhe homenagear
Cuma ele ja norreu
Vamos tentar imitar
3
No meio de tanto deputado
Um de classe foi chegar
Pra lembrar que a verdade
Sempre prevalecerá
Nem que seja a mais dura
O cabra tem que aguentá
4
Muita gente tinha raiva
Terminava indo chorar
Clodovil era assim mesmo
Ninguém podia cutucá
Pois soltava as cachorra
Num podia se enfezar
5
Esse orador de mão cheia
Falava pra sustentar
Não tinha essa de jeitinho
Depois ir se desculpar
Clodovil era na bucha
E botava pra quebrar
6
Um dia lhe perguntaram
Sobre o significado
Do nome de Clodovil
Ele disse é meio cifrado
Pois até nesse meu nome
Fala dos meu predicado
7
É um nome de três sílabas
Primeira: Clô pros chegado
A do meio do verbo dá
Eu Dô sempre de bom grado
E finalmente vem o vil
Pois sô Vil contrariado
8
Doela em quem doela
Costumava ele falar
Mas por que será o home
Foi tão cedo nos deixar
A câmara ficou chata
A rotina vai voltar
9
Vai ficar sem colorido
Preto e branco pra danar
Os mesmo home sisudo
Com paletó tudo iguá
Sem tirada inteligente
Que só ele sabia dá
10
Deixa pra lá a câmara
Que saiu no prejuízo
Pois o nosso deputado
Já tá é no paraíso
E nós conta tudo agora
Nesse momento preciso
11
São Pedro tava no céu
O molho de chave nas mão
Por cima dele uns anjinho
Desenhando um coração
Do jeito que Maria Braga
Faz na televisão
12
As trombetinhas tocando
Fazendo anunciação
Di rompante o deputado
Arriba numa produção
Todo cheio de purpurina
Brilhando que nem pavão
13
A roupa dele igualzinha
Todo lorde bem marcante
Com aquele jeito altivo
Aparências esfuziante
São Pedro se admirou
Lhe achou foi elegante
14
Começou as homenagem
Houve multa louvação
Pra contar tanta façanha
Do tão nobre cidadão
Lá no céu si faz assim
Com quem merece atenção
15
Por fim o santo chaveiro
Deu a chave dum gabinete
Dizendo pra Clodovil
Mandei botar muito enfeite
Do jeitinho do de Brasília
Espero que aproveite
16
Pedro diz a dois anjinho
Acompanhe o deputado
Esse corredor do céu
Os caminho é complicado
E pode sê que Clodovil
Debandei pra outro lado
17
Aí foram os três seguindo
Por aquela imensidão
Clodovil mais os Anjinhos
Andaram um pedação
No que viro o gabinete
Clodovil solta um gritão
18
Pois na porta bem armado
Tava dom Sebastião
Clodovil reconheceu
Pois logo beija-lhe as mão
Lhe dizendo oh! Desejado
Como é grande a emoção
19
Mas que má lhe pergunte
O que faz nesse rincão
O meu rei num se perdeu
Dize que faz um tempão
Dom Sebastião só diz
Tô aqui numa missão
20
E Segura Clodovil
Pedindo pra ele sentar
Pois a circunstância ia
Até mesmo emocionar
Clodovil com medo diz
Vosmincê vá divagar
21
O rei diz eu vim lhe falar
Di sua nova encarnação
O sinhô renascerá
Numa vila do sertão
Vai sê um tipo de home
Igualmente um Lampião
22
Com jeito de cabra macho
Defendendo os oprimido
Pois o rico explorador
Nunca terá vez consigo
Clodovil dá é um grito
Dizendo que era castigo
23
Nunca gostei de Caatinga
Eu vou é me espinhar
Dom Sebastião lhe diz
Você vai se acostumar
Vai ter também bruguelo
E mulher pra lhe amar
24
Num vai mas sê com antes
Que viveu só sem mulher
Uma vida assim sozinho
Meu Deus quem quer ?
Se aprume logo meu fio
Se alevante tenha fé
25
Clodovil chorando diz
Já deu pra me arripunar
Meu rei tá é sonhado
Pode o destino mudar
Só fartava agora essa
O sinhô quere me casar
26
Ai não que pesadelo!
Quando eu vou me acordar
Nisso chega Lampião
Dizendo: esse cabra vai já
Tu tás cum muito chamego
Tu é home ou uma preá
27
Bora vomo discançá
Que amenhã tu já desce
Clodovil vira pra ele
Ora vê se me esquece!
Lampião lhe olhou feio
Cabra tu não me conhece
28
Clodovil desesperado
Dom Sebastião vem cá!
Pelo amor de Deus
O senhor vem me salvar
O rei só diz meu querido
Nada mais posso mudar
29
Lampião apaga a luz
Mando tudo si calar
E a história acaba aqui
Num tem mais para contar
Por que com Lampião
Ninguém pode contestar
terça-feira, 9 de junho de 2009
O Cordel Nordestino
Resumo de parte da monografia do autor Luís Emanuel Cavalcanti
Escrito por poetas trovadores e gritado pelos mesmos nas feiras ensolaradas do Nordeste do Brasil, é exposto e pendurado aos montes nas barracas. Este é o Cordel, poesia popular, conto, epopéia que do século XIX chega aos nossos dias.
A produção em grande escala do cordel nordestino compreendeu o período de final do séc. XIX aos anos 30 do século passado. Essa foi a época de sua maior difusão, na qual a presença de poetas cantadores nas feiras livres no sertão do Nordeste brasileiro era frequente. Os cantadores de cordel, geralmente homens do povo, com pouca escolaridade, eram verdadeiros “artesãos das letras”. Laboriosos artistas, levavam muito a sério seu trabalho, em muitos casos eles mesmos produziam suas obras em prensas rudimentares.
Foi durante esse período que surgiu um célebre poeta de cordel, natural de Pombal na Paraíba, chamado: Leandro Gomes de Barros. Segundo o pesquisador Manuel Diegues Júnior, Leandro foi autor de mais de um milhar de folhetos. Pelo menos dois deles ficaram conhecidos Brasil a fora: O Cachorro dos Mortos e O Cavalo que Estercava Dinheiro, pois serviram de inspiração para a peça “O Auto da Compadecida”, do escritor paraibano Ariano Suassuna.
Leandro escrevia, imprimia e vendia os seus folhetos de cordel.
Da Paraíba eram os maiores cantadores de cordel, mas a capital do nordeste: Recife, o destino de todos. Foi para lá que se dirigiu João Martins de Athayde, também paraibano, Esse poeta foi um desbravador e industrializou, por assim dizer, os folhetos. Ele também foi o responsável pela consolidação e distribuição dos cordéis no Nordeste brasileiro por intermédio dos “agentes” nas décadas de 20 e 30 do século XX. Com essa “industrialização”, Athayde ajudou a padronizar o formato dos folhetos.
Acontece que antes dele, cada autor produzia suas obras em casa, de modo artesanal, razão de não haver à esta época um tamanho certo para o cordel. O formato que se conhece hoje foi conseqüência do empreendedor Athayde e os “modernos” equipamentos de sua gráfica. Os autores de folhetos acorriam de toda a região em busca dos rápidos serviços oferecidos na gráfica de Athayde. Assim, o formato foi se padronizando, chegando a ter esse que se encontra ainda hoje.
A Xilogravura
Frequentemente, na elaboração de um cordel, os autores requisitavam o trabalho de um outro artista popular: o xilógrafo - profissional indispensável na confecção das figuras tão típicas das capas dos folhetos. O serviço do xilógrafo persiste até hoje se mantendo a tradição. Mas encontrar profissionais que entalhem na madeira as tradicionais figuras não é tarefa fácil. Atualmente muitos desses artistas entalhadores envelheceram ou morreram sem deixar “herdeiros” para dar continuidade a sua arte.
José Soares da Silva, mais conhecido por Dila, com seu atelier no bairro Nossa Senhora das Graças na cidade de Caruaru, estado de Pernambuco, é um dos sobreviventes dessa arte. Dila já confeccionou xilogravuras para cordelistas importantes, entre eles Rodolfo Cavalcanti, poeta muito conhecido e já falecido. Rodolfo vendia seus cordéis no Mercado Modelo, na cidade de Salvador, nos anos sessenta e setenta.
Essas xilogravuras – o nome vem do grego "gravado na madeira" – tornaram-se emblemáticas e de extrema importância na venda dos folhetos. A clientela era atraída pelas figuras “carimbadas” nas capas com a tradicional tinta preta retratando a cena mais importante da história que iam comprar. Ainda hoje, passados mais de cem anos de vida do cordel, muita gente é atraída pela curiosa simplicidade dos traços e formas tão característicos.
O formato do cordel
As cores da capa dos cordéis parecem ter qualquer semiótica, por exemplo: os de capa cor-de-rosa são quase sempre de temas românticos, os de capa azul para temas gerais. Não existe nenhuma regra sobre as cores, mas observou-se que é frequente .
O tamanho dos folhetos de cordel tornou-se, após a padronização feita por Athayde, o que corresponde à quarta parte de uma folha de papel tamanho ofício; cada folha produzindo oito páginas com três a quatro estrofes em cada uma, não sendo uma regra, existem muitos com mais estrofes. O cordel sempre foi impresso com base na economia de material. Mesmo atualmente, o número de folhas se mantém: sempre de oito, dezesseis, vinte e quatro, multiplicando-se nessa seqüência.
No sertão nordestino daquele tempo, lugar de escassos recursos, o papel era uma preciosidade e a oferta dessa matéria-prima não era tão grande como em nossos dias.
Tal subsídio era de qualidade inferior, tipo papel- jornal; os folhetos tinham um preço bem acessível, alguns trocados, equivalente ao preço de um periódico simples de cidade de interior, nos nossos dias. Levava-se em conta que o público que o compraria, muitas vezes vinha com o dinheiro contado para a feira.
O cordel nas feiras concorria com gêneros de primeira necessidade. O cantador tinha que ser bom de goela, cantar alto seus poemas e chamar a atenção dos clientes.
Com uma concorrência grande e os outros “mascates” vendendo farinha, remédios do mato, banha de peixe-boi e tantos outros artigos, as feiras tornava-se uma verdadeira batalha de gritos e de sons cantados, pois cada um apregoava com afinco as suas mercadorias.
Fato curioso era a estratégia de venda dos cordelistas. Contavam ou cantavam as histórias, propositalmente, pela metade, no intuito de atiçar a curiosidade dos ouvintes, e quem quisesse saber o resto das mesmas teria de desembolsar algumas moedas, fruto de seu tão suado trabalho. Mas esse sacrifício nunca fora levado em conta pelos camponeses; comprar um cordel fazia parte de um ritual, acontecimento tão esperado pelos adultos e crianças: ir à feira.
Era importante para o povo da roça comprar esse “primitivo jornal”, por tratar-se de uma fonte de notícias da cidade e dos causos da região. Já no regresso ao sítio, o mesmo seria soletrado com dificuldade ou lido com devoção por alguém mais letrado, em volta do candeeiro, como relata Câmara Cascudo em seu livro: Vaqueiros e cantadores.
"As personagens do Cordel"
Esses artistas conheciam bem os macetes para atrair o público; suas histórias caiam no gosto dos sertanejos. Desta maneira, ao longo do tempo em que durou o auge do cordel, tornaram-se os verdadeiros mantenedores de uma tradição.
A condição de liberdade dos cordelistas em suas andanças entre cidades e arruados sertanejos lhes proporcionava muitas chances de tomar conhecimento de vasta gama de acontecimentos. Eles coletavam esses acontecimentos que seriam “cordelizados “ usando aqui um termo novo, para vendê-los , era esse seu trabalho .O produto dos cantadores equiparava-se às outras mercadorias oferecidas na feira. “Era o trabalho da fala”, como afirma: Antônio Arantes.
A preferência dos ouvintes por temas contados em versos não era exatamente questão de gosto poético. Tratava-se de necessidade mesmo, visto que no local onde o cordel se desenvolvia existia um enorme número de iletrados. A tradição oral se fazia necessária para ajudar na memorização. Mesmo sem saber ler, os sertanejos ouviam as histórias e graças aos versos e à musicalidade, gravavam as mesmas num ininterrupto filão epopeico.
Os cordelistas detinham o conhecimento de certos personagens épicos tradicionais como: Camonje, João Grilo, Bocage, Pedro Malasartes e tantos outros, os quais invariavelmente tinham incursões nas histórias contadas por eles. Essa prática exigia certo domínio e familiaridade com os temas, porque cada um desses lendários personagens aqui citados, representava determinadas características. Explica-se: Camões, sábio e aventureiro; Bocage: fanfarrão e mulherengo; João Grilo: cômico; e assim por diante. Os cordelistas “convocavam“, sempre que necessário, qualquer uma dessas personagens aos palcos de seus “cânticos da épica sertaneja”. Os leitores, por sua vez, conheciam bem as personagens com as quais se identificavam, num contexto vivido em comum.
O trânsito dessas personagens no imaginário do cordel mais a paisagem sertaneja, tão cheia de percalços com seus santos e demônios, eram velhos conhecidos desses artistas. Os compradores e ouvintes do cordel identificavam esses detalhes, folheto a folheto, numa história sem fim que só o povo do cordel compreendia, já que se identificava nela.
Vale registrar que em pesquisas realizadas no extremo sul da Bahia, entre as cidades de Porto Seguro e Itabuna, não foi encontrada uma difusão do cordel. A aproximação desta região com os estados do Sudeste, como Espírito Santo e Minas Gerais, fez com que a cultura propagada fosse a de lá e não a nordestina. Contudo, em Itabuna, um cordelista se fez presente, Minelvino Francisco Silva.
Fazendo-se uma arqueologia dos folhetos de cordel percebe-se que emerge dele certo traço caricatural. Os épicos de cavalaria e a da novelística ibérica trazida pelo colonizador foram sobrepostos; essas temáticas foram recriadas pelos cantadores na gesta do cangaço e nas lides do gado, dessa forma os heróis europeus cruzaram o Atlântico e transformaram-se em O valete Zé Garcia , Lampião e Antônio Silvinho. Um arremedo, criado pelo imaginário sertanejo, sobre o longínquo Portugal. As histórias da tradição lusitana, sendo recontadas oralmente por uma população de analfabetos, explicam o caráter cômico do cordel nordestino.
Por que chamá-lo "Cordel"
Até o início do estado novo, nos anos trinta, num passado relativamente próximo, o sertão nordestino (área que se estende desde o oeste de Pernambuco, norte da Bahia e sul do Ceará, região também conhecida como polígono da seca nordestino), permaneceu em relativo isolamento. Sem acesso por estradas, com um solo pobre para agricultura, ficou de fora dos avanços e das modernidades que aconteciam no sul e sudeste do Brasil. Desde a época da colonização, a população local manteve-se afastada, sem muita miscigenação,exceto a cabocla , vivendo numa espécie de redoma. Com terras pouco produtivas não houve demanda por escravos e menos ainda interesse de instalar-se, por parte dos imigrantes europeus do séc XIX, durante a grande imigração. Isso promoveu um relativo isolamento, preservando uma certa pureza da língua portuguesa e suas tradições. O fato foi confirmado por Câmara Cascudo, folclorista potiguar que nos anos cinquenta encontrou um correspondente de nosso folheto em Portugal, lá chamado de "cordel" por causa do costume dos autores populares portugueses exporem os mesmos pendurados em barbante ou cordão.
É a partir dos estudos de Câmara Cascudo que nossos folhetos, conhecidos até então como "folhetos de feira" ou "folhetos de banca", “ABC” receberam a denominação "Cordel", o mesmo nome dado em Portugal . Dessa maneira, cordel foi um nome genérico dado nos estudos acadêmicos. É algo recente, quando essa Literatura já declinava, passando para objeto de estudo.
O declínio
O fim do Cordel e de sua forma tão original veio de forma avassaladora. Vilões poderosos, utilizando-se das invenções de Guglielmo Marconi nas transmissões sem fios por ondas eletromagnéticas, iriam silenciar os trovadores e os menestréis. O rádio e depois a televisão levariam a melhor nessa luta ímpar. As estradas ampliariam irremediavelmente o mundo do cordel: as montanhas do sertão foram transpassadas, o sertanejo nordestino começava seu longo êxodo rumo à construção de Brasília e às grandes obras de São Paulo. Os temas do cordel foram profundamente alterados, já não se restringiam tão somente às fronteiras daquele "pequeno Portugal nordestino". As produções que seguiram foram profundamente influenciadas pelos temas urbanos. Nascia o Cordel "acontecimental" usando um termo do professor cearense Diatahy Bezerra de Menezes, registrando fatos históricos da atualidade. Por exemplo, o Cordel sobre a morte de Getúlio Vargas vendeu mais de setenta mil cópias em 48 horas, talvez um espasmo ou uma Fênix que renasce das cinzas, além fronteiras.
Hoje o cordel sobrevive apenas em exíguos redutos nordestinos como Juazeiro do Ceará, Caruaru , Campina Grande, Rio de Janeiro e no bairro Santo Amaro na cidade de São Paulo locais onde elegantes turistas afluem a ele para, em tradicionais barracas, escutar as antigas sagas ou novas criações urbanas, frutos da produção dos neo trovadores. É fácil também encontrá-lo em acervos nas bibliotecas e existem, até, duas conhecidas Academias de Letras de Cordel: uma em Caruaru e outra no Rio de Janeiro. - a segunda é presidida por Gonçalo Ferreira da Silva que muito contribui para preservação da cultura popular nordestina, e até na presente monografia forneceu material valioso para a sua execução.
É digno de nota que nossa literatura popular, dita cordel, nos últimos trinta anos vem despertando bastante interesse no meio acadêmico não só brasileiro, mas também no exterior. Em rápida pesquisa na internet se pode constatar inúmeras teses e livros sobre o tema como um importante trabalho do italiano: Silvano PELOSO: Medievo nel Sertão. Tradizione medievale europea e archetipi della litteratura populare del Nordeste del Brasile. Napoli: Liguori Editore, 1984.
Enfim, documentando mais de um século e testemunhando a manifestação popular, o jornal do povo em versos fez seu papel antes do rádio e sobrevive à era da internet.
SÃO JOSÉ DA LAJE - AL HISTÓRIA DA LADEIRA DA MELANCIA
É um caso de arrepiar
Não é mentira o que eu falo
Quem quiser vá comprovar
Só tenha muito cuidado
Da morte não apressar
Perguntei pra Seu Mané
E notei que ele sabia
Quantas mortes que já tinha
Na curva da melancia
Me disse que há muito tempo
Essa conta ele fazia
E já passou de uns mil
Que a malvada já levou
E só de uma vez foi trinta
Que a curva as vidas cepou
Assim ele foi contando
Cada caso que guardou
Sua casa é bem em cima
E dá pra tudo enxergar
Se ele escuta estrondo e grito
Mesma noite vai olhar
Ele desce a ribanceira
Pra conta dele aumentar
Vai com seu caderno e lápis
Lanterna pra clarear
Ajuda até a polícia
As vítimas encontrar
Das contas do Seu Mané
Quem é que vai duvidar
Aluno de faculdade
Que estava quase formando
Casal de noivo abraçado
Padeceram se amassando
E por aí foi Seu Mané
Cada caso detalhando
Teve uma kombi de velhos
Que vinha pro FUNRURAL
Foi feia essa bagaceira
Placa voou no quintal
Ficou foi velho espalhado
Dentro do canavial
Pobrezinhos dos velhinhos
Nem chegaram a aposentar
É que o bicho do chofer
Falava no celular
Matou ele os coitadinhos
E fez o sonho acabar
O Seu Mané tudo anota
Pelo sexo, idade e dia
Os que o destino encontraram
Na curva da melancia
Ele nem sabe o porquê
E de onde vem a mania
Disse que fica ocupado
No tempo do carnaval
Quem vai para Maceió
Fica no canavial
Muita notícia ele dá
Pro povo ver no jornal
Eles bebem tudo em casa
Passam cheios da cachaça
Correm, nem estão ligando
Achando que tudo é graça
Se acabam e nada vêem
Quando o buracão lhe abraça
Ônibus cheio de matuto
Sumindo no sumidouro
Nem dá pra Deus perdoar
Nem se escuta nem o choro
Esses cabras nem percebem
A gente só vê estouro
Até padre vem benzer
Pra esses males espantar
Mas nada disso adianta
E ninguém vai se salvar
Esse é mais um mistério
E a NASA sem explicar
Temos aqui no nordeste
Um triângulo das bermudas
Desafia entendimento
Essas curvas narigudas
Se dirigires pra lá
Seja atento, não te iludas
Olhe pro lado da Usina
Penda para Serra Grande
Tu vai descer essa penha
Pois o Pai do céu é grande
Ele vai te proteger
A lista do velho é grande
Até turista argentino
Foi dançar tango no céu
E sumiu no buracão
Nem comeu sarapatel
Ele faz parte da lista
De quem foi pro beleléu
Perguntei pro Seu Mané
Se algum caso lhe marcou
Ele olhou distante e disse
Que uma menina passou
Ela dirigia o carro
Coitadinha me acenou
Ela sumiu foi no mundo
Pros lados de Ibateguara
Certamente pra ladeira
A menina não olhara
Ela olhou muito pra mim
O dia dela chegara
Teve uma horrível batida
Matando a muitos crentes
Caíram eles e as freiras
E até em tempos recentes
Meninos no mato achavam
Seus crucifixos pingentes
Por último teve um jegue
Ele viajava pra Lage
Vinha lá de Canhotinho
Se encantou com a paisagem
Também não viu o buraco
E pensou que era pastagem
Isto aqui é um alerta
Para o mundo se cuidar
Dirijam com atenção
Pra curva não lhe pegar
Que as mortes na melancia
Cada vez vai aumentar
sábado, 9 de maio de 2009
"CLODOVIL FOI PRA O CÉU NO CORDEL"
"A Chegada Triunfal do Deputado Clodovil ao Céu" ( em versos de cordel ) Autor: Luís Emanuel Cavalcanti
1
Vamo lá musas matuta
Acordem vamo ajudá
Clodovil chegô no céu
Precisamo cordelar
O povo tem que saber
Que ele era espiciá
2
Se Patativa da Assaré
Ainda tivesse por cá
Ia fazê um ABC
Pra lhe homenagiá
Mas aqui a gente inventa
Vamo tentá lhi imitá
3
Entre tanto diputado
Um de classe foi chegá
Pra lembrá que a verdade
Sempre prevalecerá
Nem que seja a mais dura
O cabra tem que aguentá
4
Munta gente tinha raiva
Uns até ia chorá
Clodovil era assim mermo
Num pudia cutucá
Pois sortava as cachorra
Num pudia se enfezá
5
Oradô pra vê duê
Falava pra sustentá
Não tinha essa de jeitim
Depois ir se descurpá
Clodovir era na bucha
Pois butava pra quebrá
6
Um dia lhe perguntaro
Sobre o significado
Do nome de Clodovir
Ele disse é cumpricado
Pois inté nesse meu nome
Fala dos meu predicado
7
É um nome de três sílaba
Primeira: "Clô" pros chegado
A do mei do verbo dá
Eu "Dô" sempre de bom grado
E finarmente vem o "Vir"
Pois sô "Vir" contrariado
8
Doela em quem doela
Custumava ele falá
Mas por que será o home
Foi tão cedo nos deixá?
A câmara ficô chata
A rotina vai vortá
9
Vai ficá sem colorido
Preto e branco pra daná
Os mermo home sisudo
Cum paletó tudo iguá
Sem as tirada inteligente
Que só ele sabia dá
10
Deixa pra lá a câmara
Que saiu no prejuízo
Pois o nosso diputado
Já tá é no paraíso
E nós conta tudo agora
Nesse momento preciso
11
Sum Pedro tava no céu
Seu móio de chave na mão
Por cima uns querumbim
Desenhando um coração
Do jeito que Maria Braga
Faz na televisão
12
As trombeta ia tocano
Fazeno anunciação
Di rumpante o diputado
Chega numa produção
Todo chei de purpurina
Brilhano qui nem pavão
13
A rôpa dele iguarzinha
Todo lorde bem marcante
Com aquele jeito artivo
Cas parença insfuziate
Sum Pedro se admirô
Lhe achô foi elegante
14
Começô as homenage
Hôve munta lovação
Pra contá tanta façanha
Do tão nobre cidadão
Pois no céu si faz assim
Com quem merece atenção
15
Por fim o santo chavêro
Lhe mandô pra um gabinete
Dizeno: ói! Clodovir
Mandei butá munto infeite
Tá mió qui o de Brasílha
Espero que tu aproveite
16
Pedo diz a dois anjim
Acumpanhe o diputado
Esse corredô do céu
Os camim é cumpricado
E pode sê que Clodovir
Si disvie pra outro lado
17
Aí fôro os três seguino
Por aquela imensidão
Clodovir mais os anjim
Andaram um pedação
No que avista o gabinete
Clodovir sorta um gritão
18
Pois na porta bem armado
Tava são Sebastião
Clodovir reconheceu
Pois logo beja-lhe as mão
Dizendo oh,meu santinho
Cuma é grande a imoção
19
Mas que má lhe pregunte
O que faz nesse rincão
Um santo cumo vosmecê
Num mereço essa atenção
São Sebastião só diz
Tô aqui pra uma missão
20
E Sigura Clodovil
Pidino pra se assentá
Pois a sercunstança ia
Intá mermo imocioná
Clodovir cum medo diz
Vosmincê vá divagá
21
O santo logo lhe diz
É sobre sua incarnação
O sinhô será mandado
Pra uma vila do sertão
Vai renacer como um home
Iguarmenti um Lampião
22
Cum jeito de cabra macho
Defendeno os oprimido
Pois o rico exploradô
Nunca terá veiz cunsigo
Clodovir dá é um grito
Dizeno que era um castigo
23
Pois num gosto de Caatinga
Eu só vô é me espinhá
São Sebastião lhe diz
Você vai se acustumá
Vai tê também uns filinho
E uma mulhé pra lhe amá
24
Num vai mas sê cuma antes
Qui viveu só sem mulhé
Uma vida assim sozim
Meu Deus quem qué ?
Se aprumá logo meu fio
Se alevante tenha fé
25
Clodovir chorano diz
Já deu pra me arripuná
O sinhô tá é sonhado
Pode o destino mudá
Só fartava agora essa!
O sinhô vim me casá
26
Oh! Não que pesadelo
Quando eu vô me acordá.
Nisso chega Lampião
Dizeno: esse cabra vai já
Tu tás com muito chamego
Tu é home ou uma preá
27
Bora vomo discançá
Que amenhã tu já desce
Clodovir vira pra ele
Ora vê se tu me esquece!
Lampião lhe falô grosso:
"Cabra tu não me connhece"
28
Clô chorano muito diz:
São Sebastião vem cá !
Pelo amor de Deus
O sinhô vem me sarvá
Mas o santo diz: meu fio
Mais nada posso mudá
29
Lampião apaga a luz
Mandô o povo si calá
E a histora acaba aqui
Num tem mais para contá
Com coroné Lampião
Quem é que vai cuntestá
Clodovil ia achar esse cordel podre...
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A tragédia da Cova da Moça - um Otelo Nordestino

pelo ciúme
cuja a mão, como a de
um índio vil, atirou
longe uma pérola
mais preciosa do que
toda a sua tribo...”
Otelo. quinto ato, cena II
William Shakespeare,
1
A tragédia de uma moça
Estes versos vão contar
Quando foi que aconteceu
Poucos sabem precisar
Esta cidade estremece
Somente de ouvir falar
2
Pra narrar esta história
Cada um tem sua maneira
Já que o povo inventou tanto
Este Cordel segue à esteira
Pra ver se dá pra contar
A história da moça inteira
3
Pode ser até um jeito
Para história registrar
Pois se um dia em Porto Seguro
Shakespeare viesse aportar
A tragédia desta moça
Para Inglaterra ia levar
4
Nós sempre nos esquecemos
Das desordens dessa vida
Só que o caso desta moça
Não cicatrizou a ferida
No inconsciente coletivo
A lembrança está bem vívida
5
Desta mártir inocente
Sempre o povo vai lembrar
Um século e meio se passou
Mas você pode perguntar
Aonde ela foi enterrada
Qualquer um sabe o lugar
6
Enterraram ela no mato
Bem longe do campo santo
Este crime passional
Até hoje causa espanto
Foi acusada de adultério
Jogaram em qualquer canto
7
Vamos tentar entender
Como ela foi se enredar
E o porquê desta infeliz
Com um monstro se casar
Isto não foi obra de Deus
Mas o cão que foi atentar
8
Ela casou com um juiz
Que iam transferir para cá
A nomeação tinha saído
Mas não deu pra ele viajar
Só ela veio da capital
Sem lua-de-mel consumar
9
Ela encarou uma barca
Que fazia linha pra cá
A coitada quase morre
De tanto o mar balançar
E só ficou sossegada
Quando terra foi avistar
10
Estava apreciando a vista
Só que a barca sacudia
Era a entrada da barra
A Igreja da Pena via
Seu marido tinha dito
Que do mar ela veria
11
Quando já estava em terra
Veio um cabra lhe ajudar
Era gente do doutor
Começou a lhe olhar
A moça rezou o credo
Começou a se arrepiar
12
Ele foi pegando as malas
Fazendo muito elogio
Seu jeito era de ruim
A moça logo sentiu
Teve mais uma impressão
Que lhe deu mais arrepio
13
Naquele tempo antigo
Não misturavam sentido
Ninguém sabia direito
O que era um ser atrevido
A moça foi lhe tratando
E lhe dando logo ouvido
14
O bicho era debochado
Ela pediu pra ele parar
Pois estava envergonhada
Ele começou a chatear
Imagine que este homem
Disse você é de arrasar
15
Ela lhe chama de atrevido
Que a respeite por favor
Pois ela estava casada
Seu marido era doutor
E já estava cansada
De seu olhar constrangedor
16
Deus ajudou chegou em casa
Encontrou limpa e perfumada
Uma mucama ajeitou
Pra dama tão esperada
A moça vai pra janela
Ficou muito deslumbrada
17
A casa dava para um rio
Era muito confortável
Com as árvores do mangue
O lugar era agradável
As folhas eram tão verdes
De um frescor inigualável
18
Naquele tempo uma viagem
Durava toda uma vida
As coisas eram tão longe
Que hoje ninguém acredita
Pois se demora um minuto
O povo logo se irrita
19
Cansada dessa jornada
A moça vai se banhar
Nas mornas águas do rio
Ela tenta relaxar
A coitada nem percebe
Que estavam a lhe espiar
20
Tinha um cara no mangue
Sem que ninguém o notasse
Não tirava o olho dela
Parecia um paparazzi
Admirava o lindo corpo
Como se fotografasse
21
A moça não pressentiu
Mas foi pra casa almoçar
A mucama traz uma toalha
Pra ela poder se enxugar
E ela não parava de dizer
O quanto era lindo o lugar
22
Era época de Dom Pedro
Não existia nem motor
Era tudo pelo vento
E tinha que estar favor
A moça começou a bordar
Pra esperar seu doutor
23
Só tomou uma precaução
Prevenindo sua empregada
Que enquanto o juiz não chegasse
Para evitar fofocada
Não deixasse nenhum homem
Adentrar na sua morada
24
A moça não exagerou
Por ter tanta precaução
Ela viu pela treliça
Aquele mesmo cidadão
Que lhe ajudou com as malas
Fazendo tanta insinuação
25
E teve um dia que o pervertido
Queria limpar seu coqueiro
Ela respondeu da janela
Decidida e bem ligeiro
Aqui dentro desta casa
Homem não vai no terreiro
26
Meu marido está viajando
E eu não gosto de piseiro
Quando ele vier para casa
Você pode sair limpando
Se ele der consentimento
Tudo quanto é coqueiro
27
Ele abanou o chapéu
Deu um sorriso malicioso
Ele pensava que era bom
Se achava muito gostoso
Mas a impressão que dava
Era de pavor e de nojo
28
A moça botou a mantilha
E foi fazer uma oração
A mucama lhe traz água
Para aliviar a pressão
A moça ficou ajoelhada
Até passar sua aflição
29
Quando fechou o oratório
Seu rosto santificado
Lembrava o de Santa Rita
De tanto ela ter rezado
A mucama se aproxima
Pra lhe dar um resultado
30
A mucama pesquisou
Sobre aquele malfeitor
Vejam o que ela descobriu
Ele era irmão do doutor
Por parte de pai ela disse
Que uma amiga lhe falou
31
Valha-me Deus disse a moça
Este homem é meu cunhado
Vai ver que o doutor nem sabe
Que o irmão dele é tarado
Porque se soubesse disso
Deserdava este atentado
32
Os dias passaram tranqüilos
Ele não lhe importunou
A moça fez tanto crochê
Que o tempo logo passou
Um dia bateram na porta
Era o doutor que chegou
33
Foi virando a maçaneta
Não esperou ninguém abrir
Trazia uma cara tão feia
Parecia mais um zumbi
A moça sorriu pra ele
Pra tentar lhe distrair
34
A visão assustou a moça
Seu amor se transformou
Ela lhe manda tomar banho
Pra melhorar o calor
Mas ele diz que está limpo
A moça abraça o doutor
35
Que a recusa e lhe diz
Eu não quero me sujar
Pois numa mulher adúltera
Eu não quero nem tocar
A moça se ajoelhou
Começou logo a rezar
36
A coitada imaginou
Que era efeito da viagem
Vinte dias numa barca
O povo via até miragem
Ela lhe pede pra sentar
Pra recompor a coragem
37
Chorando dizia ao doutor
Que fosse guardar a bagagem
Pois também passou por isto
Era tudo uma bobagem
E ele ficaria logo bom
Se tomasse beberagem
38
A moça grita por chá
Pra tranqüilizar seu amado
Mas ele dizia que algo ali
Tinha que ser comprovado
Foi arrancando roupa dela
Parecia mais um tarado
39
Chamava-lhe de traidora
Que ele tinha uma missiva
Comprovando que a coitada
Virou mulher permissiva
E só tinha cara de anjo
Mas era cruel e nociva
40
Ela diz que é delírio
Porque sempre foi católica
Temente dos mandamentos
E a história era estrambólica
E na barca que ele veio
Tinha era bebida alcoólica
41
O doutor era moreno
Homem alto e presunçoso
Parecia um estrangeiro
De um lugar bem perigoso
Perdido sem Jesus Cristo
Estéril e pedregoso
42
A moça ficou sem roupa
Começa a investigação
Num sinal particular
O doutor presta atenção
Pois ele não conhecia
Casou com procuração
43
Tira a tal carta do bolso
Prossegue com o terror
Compara com um desenho
Que um estranho lhe mandou
Em carta sem remetente
O doutor acreditou
44
O sinal era na coxa
Num lugar bem escondido
A pessoa pra ver aquilo
Só mesmo sendo o marido
O ciúme tomou-lhe conta
O cabra estava possuído
45
Quebrou todos os vidros
As louças do casamento
Os bordados primorosos
Voaram para o calçamento
Pelos cabelos lhe arrastou
Da sala até o aposento
46
Aos gritos falava da carta
Da dúvida sobre o autor
A criada escuta os insultos
Trouxe o chá para o doutor
Mas ele diz que se afaste
E lhe agride com furor
47
Naquela época um criado
Não se metia com patrão
Era tempo dos escravos
Quem é que saia do rincão
Mas essa boa mucama
Não deixou barato não
48
Foi pra o fundo do quintal
Pra colher uns vegetais
Fez logo uma fogueira
Cantou hinos ancestrais
Clamou pela proteção
De todos seus Orixás
49
A mucama era vidente
E também lia pensamento
Enquanto subia a fumaça
Fazia um encantamento
Pra saber quem acabou
Com aquele casamento
50
Teve a visão de sua patroa
Vestida só com anágua
Tomando banho no rio
Se revigorava na água
E o irmão do juiz desenhando
Com a boca cheia d’ água
51
Ela desperta do transe
Corre pra salvar sua dama
Mas encontra ela estendida
Já morta em cima da cama
E o assassino a seu lado
Tinha enforcado sua ama
52
Vestida de muita coragem
Depois daquele ritual
A mucama enfrenta o juiz
Chamou-lhe de irracional
Matou a mais pura criatura
O ser mais angelical
53
Gritava que ela era séria
E toda aquela armação
Tinha sido planejada
Pelo seu covarde irmão
O monstro mais invejoso
A imagem da perdição
54
Eis que o irmão do juiz
Estava chegando e escutou
A mucama descobriu
E falava pro doutor
Ele voou pra cima dela
Com um punhal lhe furou
55
Mas o juiz tenta salvá-la
Das mãos daquele bastardo
E com um tiro certeiro
Derrubou o desgraçado
Ele não soltou a mucama
Morreram os dois agarrado
56
Os vizinhos se assustaram
Foram chamar o ouvidor
Era o chefe no momento
Veio ver aquele horror
O juiz deitado com a moça
Dizendo matei meu amor
57
Estava com ar de doido
Ele queria se matar
Ficou pouco tempo na vila
O Estado mandou exilar
E até hoje ninguém sabe
Aonde é que ele foi parar
58
As três mortes no quarto
Poder-se-ia comparar
Com a tragédia de Otelo
Quem já leu vai se lembrar
O caso ficou tão enredado
Só Shakespeare da pra explicar
segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A HISTÓRIA DE CARMINHA E SAMUEL
1
Só se luta nessa vida
Depois os filhos crescem
O que nos espera é a morte
As vistas escurecem
Ficam dois velhos em casa
Pouco a pouco emudecem
2
E ninguém fala mais nada
Se jogam lá num sofá
Vai tudo se acomodando
Esperando a morte chegar
Nem sabem se está perto
Já começam a esperar
3
Numa situação assim
Carminha contou que vivia
Trancada com seu marido
Que só Deus acudia
Pois até pra ir ao banco
Era alguém pra ela ia
4
Nem comida mais fazia
O fogão era brilhando
Os dois assim arreados
Iam se mumificando
Às vezes um marmitex
E que estava lhes salvando
5
A velha disse que um dia
Num surto de impaciência
Olhou pro velho e pensou
Pra que na vida decência
Temos dinheiro pra nada
Estou perdendo a paciência
6
Se esse troço velho
Se for do mundo primeiro
Juro que eu corro no banco
E rapo todo o dinheiro
Vou viver o que me resta
Conhecer o mundo inteiro
7
Só vou deixar reservado
O dinheiro do caixão
Deus me livre de mais velho
Só vou querer garotão
Pra torrar todo dinheiro
E viver com emoção
8
Parece que foi macumba
O velho logo sucumbiu
Nem sentava mais no sofá
Por causa do estado febril
Não passou uma semana
Queimou o resto do pavio
9
Quarenta e cinco anos
Durou esse casamento
Mas temos que admitir
Aquilo já era tormento
E esse povo vivia junto
Por causa dum juramento
10
Enterraram logo velho
Ela voltou pra sua morada
Por dentro estava contente
Iria dormir sossegada
Os filhos iam lhe acompanhar
Mais ela disse que nada
11
Vocês fiquem sossegados
Se é por causa de fantasma
Ele já ficou enterrado
Acabou-se crise de asma
Me acordando de madrugada
Pra ir atrás de cataplasma
12
Os filhos se entre olharam
Não entenderam nada não
Disseram ela melhora
Passou por muita pressão
Mais eles se enganaram
A velha não mudou não
13
No outro dia amanheceu
Bem disposta e descansada
Separou todo dinheiro
E saiu no mundo largada
Nem deixou o do caixão
Ela saiu foi disparada
14
E logo no primeiro dia
Deu um desejo realizou
Foi no cinema ver Zorro
A velhinha se empolgou
Passou numa loja chique
E roupa nova ela comprou
15
Botou batom vermelho
Parecia bem mais nova
Hospedou-se num hotel
Toda linda e cheirosa
De noite pediu champanhe
Estava mesmo gloriosa
16
A gastança começou
Era rica de montão
Gorjeta sempre incluída
A coroa fazia questão
O tratamento de rainha
Lhe dava satisfação
17
Vamos deixá-la relaxando
Na sua cama acolchoada
Planejando suas aventuras
E ver como estão os filhos
Pois eles não tinham pista
Onde enfiou-se esta danada
18
Estava todo muito doido
Até na polícia tinham ido
Já fazia alguns dias
Que a velha tinha partido
E a preocupação maior era
Que a grana tinha sumido
19
Carminha tinha retrato
Em tudo quanto é jornal
E seu rostinho estampado
Causou comoção geral
Agora ela era importante
Por causa do capital
20
Achem nossa mãe querida
Daremos gratificação
Tem que tomar remédio
Sofre muito da pressão
Seus filhos estão tristes
Passando por aflição
21
No anuncio a foto de dela
Com uma carinha de vovó
Colada no ponto de ônibus
O povo lia e tinha dó
Mais ninguém dava noticia
A velhinha virou pó
22
Mas era pó de maquiagem
Estava muito mudada
Não vestia mais vestidão
Agora era legge colada
Um dia ela viu sua foto
E deu muita gargalhada
23
Quem lhe reconheceria
Ainda mais com Samuel
Um garçom simpático
Que ela conheceu no hotel
Só viviam de mãos dadas
A coroa estava no céu
24
Um dia no ponto de ônibus
Samuel olhou pra tal foto
E disse para Carminha
Que velha tão amarela
Carminha disse é mesmo
Eu estou até com pena dela
25
O garçom nem desconfiou
Nada daquela gracinha
Estava mesmo mudada
A danada da Carminha
O que o dinheiro não faz
Ela virou uma cocotinha
26
Mais ela podia ser pega
Facilitar não convinha
Ela disse pra Samuel
Que tal Porto de Galinha
Ele disse boa idéia
E rodopiou a velhinha
27
Da Bahia a Porto de Galinha
É chão que nem o cão
Foram de São Geraldo
Ela não entrava em avião
Dois dias sentados num banco
Deu pra falar um montão
28
Falou das doenças do velho
E o pijama azul desbotado
Da barba de presidiário
E o olhão arregalado
Dos gritos que ele dava
Acordando apavorado
29
Falou também dos filhos
Casal de praga que tinha
Eles nunca visitavam
A pobre vivia sozinha
Falando com as paredes
O velho só tosse tinha
30
Aí o rapaz lhe abraçou
Deu lhe um beijo apaixonado
Prometeu ficar com ela
Nunca sair do seu lado
Pois até lhe conhecer
Também vivia aperreado
31
Ficou sem mãe muito cedo
E nos vinte um ano de idade
O seu pobre coração
Era morada da saudade
Sofria muito nesse mundo
Passando dificuldade
32
Carminha quase chorando
Disse muito emocionada
Que não lhe daria filho
Por estar muito passada
E Samuel só lhe disse
Cuide de mim e mais nada
33
Chegaram em Pernambuco
Compraram um bangalô
Era bem perto do mar
Um belo ninho de amor
Carminha se bronzeava
E no cabelo botava flor
34
Samuel lhe sussurrava
Belas frases de amor
Ninguém falava em idade
Pois era grande o furor
Carminha se estremecia
Com um fogo abrasador
35
Mas depois de algum tempo
E ajuda de uns detetives
Acharam o lar deles dois
Aqueles filhos horríveis
Vinham atrás do dinheiro
Eles eram mesmo incríveis
36
Samuel foi recebê-los
Com uma aliança no dedo
E disse pros filhos dela
Casei com ela em segredo
Carminha agora está salva
E nunca mais terá medo
37
Vocês não lhe valorizavam
Por mim será bem tratada
Já aplicamos o dinheiro
Ela está bem remoçada
Agora querem sua mãe
Ninguém vai levar nada
38
O filho de Carminha
Investiu contra Samuel
Foi lhe dando logo uns socos
O desfecho foi cruel
Carminha entrou no meio
Branca que nem papel
39
Tremia que nem vara verde
Gritou por Nossa Senhora
Vão matar Samuel
Salvá-me dessa hora
Ele me trouxe a felicidade
O quê que eu faça agora
40
Ela pegou o telefone
E chamou 190
A polícia encostou
O caso pareceu serio
Pois chegaram dando tiro
Sem ter nenhum critério
41
A Polícia pernambucana
A Carminha assustou
Foram tão exagerados
Que a coitada enfartou
Um soldado gritou pro outro
Pedindo um desfibrilador
42
E o povo foi se afastando
Pra Carminha respirar
Daí contaram até três
E foram lhe desfibrilar
Carminha levou um sopapo
Começou logo a falar
43
Queria saber de Samuel
Tudo estava a desabar
Achava que ele morreu
Mas a filha veio acalmar
Disse mãe ele levou um tiro
Só vai ter que internar
44
A velha perguntou
E o teu irmão como tá
A filha disse pra velha
Ele não pôde escapar
Está crivado de balas
Foi à polícia enfrentar
45
Carminha teve outra crise
Ela começou a delirar
Dizia que coisas terríveis
A gente podia conversar
Por que nos descobriam
Só veio confusão pra cá
46
O filho morto no chão
Samuel na espinha baleado
Ela estava quase morta
Lhe amparava um soldado
E a causa de tudo isso
Um povo descontrolado
47
Continuava delirando
Primeiro a gente raciocina
Não vai inchado como um sapo
E pulando logo pra cima
Se se pensasse assim
Nunca ia ter chacina
48
Um médico apareceu
Carminha parou de delirar
Pois ele deu-lhe calmante
Pra ela parar de falar
Botou Samuel numa maca
E foi todo se internar
49
A filha queria ir junto
Mas Carminha e Samuel
A velha disse Deus me livre
Saia daqui “go to hell”
Estou livre de vocês
E levantou as mãos pro céu
50
A ambulância deu partida
Com destino ao hospital
Uma enfermeira acompanhou
Pra tranqüilizar o casal
Acabou tudo bem
Este amor é imortal